O craque que nunca foi – um texto do Velho Cronista

29/07/2016 - Prazeres Correlatos

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O craque que nunca foi – um texto do Velho Cronista

Velho Cronista
Do tempo em que o futebol era jogado de chuteiras pretas

Pelo sol, não deveria ser mais que 4 horas da tarde quando bateram na porta da casa dos Chera, numa cidadezinha no interior do Paraná. Era uma equipe de televisão, que vinha de longe pra ver o futebol que morava ali, encravado no corpinho franzino de Jean Carlos, o primogênito da família, então com 10 anos de idade.

Os pais, vaidosos dos predicados do filho, receberam as câmeras curiosas com orgulho e derramaram todas as suas expectativas nos microfones, dizendo tudo quanto esperavam do piá, a redenção em forma de guri. Tímido, mirando mais o chão do que as lentes, Jean puxou a bola e foi cumprir o seu ofício, fazendo embaixadinhas e outras peripécias.

E foi como se aquela pelota de couro momentaneamente ignorasse as leis da física, cuspisse nos livros de Newton e vivesse, por uns segundinhos que fosse, pelas leis de Jean, obedecendo todo e cada toque e nunca conhecendo o chão. Era um número do Cirque de Soleil. A bola ia dos pés para a nuca, da nuca para as costas, das costas para as coxas – só não batia nas canelas porque o menino era fino demais para isso.

Depois, num campinho canhestro, desses onde o futebol de verdade acontece, o piá correu com a bola dominada e bateu faltas com a facilidade de um Zico. Numa pelada marcada para os olhos da TV, gingou com folga pra cima de outros meninos maiores do que ele, desfilando como se fosse mais leve do que o ar, e apanhando de sobra, porque vida de craque já é dura desde o nascedouro.

O videoteipe dos malabarismos de Chera correu o mundo e o povo todo, vendo o absurdo, concordou que ali, naquele casebre do interior do Brasil, vivia uma divindade, o redentor do novo futebol.

Nós, 200 milhões de almas sedentas por um novo Garrincha, compramos na hora o bilhete que nos vendiam e ficamos à espera do amadurecimento do moço. Seríamos felizes depois dele.

O próprio guri, sem saber das malvadezas que a vida apronta, também comprou a imagem que fizeram dele e passou a esperar pela coroa que um dia lhe poriam na cabeça.

No peito do pai, além da vaidade e do orgulho, ardia também o dinheiro, que a essa altura já brotava de todos os cantos. Assim, antes mesmo de ter espinhas na cara, o menino já carregava nas costas a família inteira: ganhava 30 mil reais por mês.

Os contratos foram aparecendo e o guri, agenciado pelo pai, de repente já não era mais uma promessa – era um produto caríssimo exposto nu numa vitrine para o mundo inteiro ver.

Teve chuteira lançada com o próprio nome no mercado, fez ensaio para revistas, deu entrevistas em diversas línguas e, quando viu, estava curtindo uma vitória que ainda não era dele.

Chera
Chuteira da Umbro lançada com seu nome antes ainda de ser um profissional.

Sabedor do sucesso que lhe esperava, Jean, o craque, foi curtindo a vitória antes da hora. Deitou em berço esplêndido e, dizem, deixou de aprimorar a forma física, de aprender a chutar e passar com a perna ruim, deixou de marcar, de cabecear.

Aos poucos, essas mazelas todas foram carcomendo o menino pelos calcanhares.

E com o tempo, o futebol dele foi minguando. O povão que ia acompanhar os treinos já não via no menino aquilo que a TV um dia mostrou. Nos amistosos, a torcida vaiava. Nos campeonatos juvenis, o técnico punha outro no lugar.

Eis que, envolvida em melancolia, veio a vida profissional de Jean, o coadjuvante.

Jogou no Santos, no Genoa, da Itália, no Flamengo, no Atlético-PR, no Cruzeiro, no Oeste, no Cuiabá. E foi o tempo todo um jogador discreto, facilmente marcado e desarmado, um chutador sem força nem jeito, um guri sem velocidade nem genialidade.

De repente, ele era só um corpo sem alma, um naco de carne a percorrer os campos deste país.

E cansado da frustração pública, do vexame apregoado, Jean, o refugo, resolveu parar.

Aos 21 anos, ganhando um salário mínimo na Portuguesa Santista e com a namorada grávida de oito meses, pôs tudo a venda e vai voltar pra casa, no Mato Grosso.

Chera
Jean Carlos entre Gabriel e Neymar. O único de quem se falava foi justamente quem não vingou.

Jean Chera, o fracasso, é um tiro que saiu pela culatra. É a síntese do desencanto.

A vergonha do insucesso, vejam os senhores, todos nós vivemos, cada qual na sua medida, mas sempre no particular, na irrelevância que nós temos. Mas a ruína de Chera, ao contrário, é um escárnio público, uma desventura monumental acompanhada ao vivo, com câmeras apontadas e analistas comentando em tempo real.

Ele está caindo e todos nós, com nossos dedos podres, estamos em volta, abrindo contagem e olhando nos olhos do guri, cobrando uma explicação, um pedido de desculpa, que seja.

Mas a explicação, meus caros, é uma só: Jean é fruto da loucura do mercado sinistro que nós montamos em torno do futebol. Ele é vítima da voracidade do próprio pai, que queria salários de campeão europeu para um menino que até então só tinha se apresentado no YouTube. Mas também é mártir da mídia, que precisa parir todos os dias um novo gênio, um miúdo redentor para tudo o que vivemos. E nós, o povo, temos também nossa parcela de sangue nas mãos, com essa nossa pressa pra ver o circo armado, custe o que custar para quem vive atrás dos panos.

Jean está morrendo para o futebol. E, de quebra, está jogando umas pás de terra na expectativa dos parasitas que subiram nos ombros de uma criança pra pegar um lugarzinho ao sol.

Façamos silêncio, portanto.

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