Abadia das Gerais – A cervejaria brasileira que produz somente receitas belgas

04/07/2020 - Cervejarias, Entrevistas

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Abadia das Gerais – A cervejaria brasileira que produz somente receitas belgas

Ana Paula Komar
Jornalista, apaixonada por história, curiosa por culturas e apreciadora de boas cervejas!

Para os amantes de cerveja, a Bélgica é o paraíso na Terra. Alinhada entre a França, a Holanda, a Alemanha e o mar do Norte, a “minúscula” Bélgica tem 12 milhões de habitantes, três línguas e algumas das melhores e mais complexas cervejas do mundo. Na garrafa, muitas ostentam uma fermentação secundária e a bela sedimentação de leveduras dormentes. São cervejas geralmente frutadas, condimentadas, terrosas e aromáticas. Foi nessa incrível escola cervejeira que a Abadia das Gerais se inspirou para elaborar as suas receitas e entrar no mercado brasileiro.

Localizada em Nova Lima, a Abadia da Gerais foi oficialmente inaugurada no dia 31 de agosto de 2019 com o lançamento da linha própria e seus três primeiros rótulos. Entretanto, desde janeiro de 2019 já funcionava para atender a produção das cervejarias ciganas (cervejarias que não possuem fábrica própria e alugam o espaço e equipamentos de outras que disponibilizam esse serviço). 

Com uma proposta bem diferenciada, a Abadia das Gerais pretende produzir apenas cervejas de estilos belgas, porém respeitando peculiaridades como o clima e o gosto do brasileiro. Características que são levadas a sério em suas receitas e que trazem um resultado final único à bebida.

A cervejaria conta com seis sócios ao todo: Arnaldo Rogério Carmona, Bruno Antônio Assunção Peixoto, José Alfred Raposo Greathouse, William Faria de Oliveira, como sócios investidores e com participações em decisões estratégicas da empresa, e Marcelo Magnabosco e Danilo Leite Mendes inteiramente à frente do projeto.

Dona de receitas incríveis pra belga nenhum colocar defeito, procuramos entender mais sobre a Abadia das Gerais. Nós falamos com um dos sócios fundadores, Marcelo Magnabosco, que nos conta sobre sua trajetória, como a ideia surgiu, seu processo produtivo e projetos futuros. 

Das panelas para uma fábrica – como tudo começou

Como começaram a trabalhar com cerveja artesanal? Qual foi o pontapé inicial?

Danilo Mendes, meu sócio, é um dos primeiros cervejeiros caseiros de Belo Horizonte, ele produz cerveja em casa desde 2004. Em 2008 ele iniciou os cursos de produção caseira de cervejas e também foi um dos membros fundadores da Acerva Mineira. 

Minha trajetória começou um pouco mais tarde. Primeiro como cervejeiro caseiro em 2010, ainda quando cursava engenharia química em Curitiba. Depois que me mudei para Belo Horizonte me dediquei a cursos de sommelieria e produção. E assim começamos!

Mesmo produzindo em escala industrial, uma das coisas que temos em comum é a paixão pela produção caseira. Aliás, nunca queremos abandonar este hobby.

Como surgiu a Abadia das Gerais?

Desde de 2016 vinha alimentando o sonho de abrir algum negócio no ramo cervejeiro, inicialmente a ideia era um laboratório para atender as microcervejarias, que uniria a minha paixão por cerveja e expertise profissional, uma vez que já trabalhava em laboratórios de análise ambiental. Porém, depois de montar o plano de negócios, vi que não seria a melhor opção naquele momento. 

Em 2017 assumi a operação de uma cervejaria arrendada. No início de 2019, o Danilo Mendes me procurou para saber quais eram meus planos para a cervejaria. Uma feliz coincidência, pois já tinha a intenção de batizá-la de Abadia das Gerais, um resgate também a uma antiga marca do próprio Danilo a “Gerais Cervejaria Artesanal”, que depois foi transformada em Abadia das Gerais pelo antigo dono da cervejaria somente para lançar os rótulos de estilo Belga. O que fizemos foi dar andamento à ideia e criamos a Abadia das Gerais.  

Por que a inspiração na Escola Belga?

A Escola Belga sempre foi a escola cervejeira que mais gostei de experimentar e explorar como cervejeiro caseiro, seja pela criatividade e complexidade dos sabores e aromas, ou pela utilização de frutas e especiarias em suas receitas, com equilíbrio e sem exageros. 

Eu e o Danilo compartilhamos da mesma visão, de que o público cervejeiro em geral não conhecia de fato a Escola Belga, pois os exemplos comerciais que a maioria das pessoas têm acesso não eram as melhores referências. Sem generalizar, mas normalmente os exemplares comerciais são “subatenuadas” (docinhas), “subcarbonatadas” e “sublupuladas”, sendo que quase nenhuma utiliza o processo de refermentação na garrafa. Mesmo as artesanais brasileiras, que exploram um pouco a Escola Belga, quando reproduzem os estilos clássicos desta escola, produzem cervejas baseadas nesses exemplares.

Pessoalmente, a minha grande motivação foi o livro “Brew Like a Monk: Trappist, Abbey, and Strong Belgian Ales and How to Brew Them”, do Stan Hieronymus. Fiquei fascinado com a simplicidade da receita daquelas cervejas tão complexas. Mergulhei de cabeça na produção de cervejas de Abadia. Depois disso tive o imenso prazer de encontrar o Stan ano passado, em uma visita dele ao Brasil e lhe contei sobre o projeto e como o livro foi uma grande inspiração. 

Qual é o objetivo da cervejaria?

Acreditamos que o mercado artesanal brasileiro é muito voltado para a Escola Americana, e queremos mostrar uma outra alternativa para consumidores usuais das APAs e IPAs. Acreditamos que este nicho de mercado não é muito bem explorado atualmente no Brasil. E para quem conhece e aprecia as cervejas belgas “raiz”, queremos oferecer uma ótima experiência gastronômica. E, sem presunção, produzir uma cerveja que um cidadão belga reconheceria como um produto autêntico, que poderia ser vendido em qualquer bar respeitável de Bruxelas.     

Quando dizem que a cervejaria é “Inspirada nas melhores receitas belgas, com o coração e a simplicidade mineira”, o que querem dizer com isso? Quais são os diferenciais das cervejas?

Cervejas com apelo gastronômico, como é de se esperar de cervejas do estilo belga, com camadas de sabor desenvolvidos pelos maltes e lúpulos nobres, fermentação com linhagem belga e refermentação na garrafa, porém leves, de alta drinkability, amargor equilibrado e final bem definido.

O mercado mineiro e belo-horizontino é um mercado bem particular, estamos falando da capital nacional dos bares, um para cada 250 habitantes. O mineiro ama cerveja, mas via de regra o consumo é despretensioso, no barzinho, no churrasco, sem formalidades, no famoso copo “lagoinha”. 

Isso se reflete muito no mercado cervejeiro artesanal. Quase todas as cervejarias daqui têm Lagers claras como o produto que corresponde a 80 ou 90% das suas vendas. Normalmente, o consumidor mineiro apoia o produtor local, aprecia as cervejas artesanais, mas não deixa de consumir um produto mais leve e refrescante. 

Desta forma, a nossa intenção é oferecer um produto inspirado nas cervejas belgas clássicas, sequinhas, bem carbonatadas, com amargor, aroma frutado e condimentado extremamente equilibrados. Assim, as cervejas ficam mais versáteis, podendo se adequar a esses momentos de descontração, quando as cervejas não muito alcoólicas e mais refrescantes têm espaço cativo. Queremos que ela seja consumida em jantares harmonizados, mas também queremos ser lembrados no churrasco de fim de semana, ou numa degustação despretensiosa. 

Quais são os maiores desafios de produzir cervejas tradicionais belgas em solo brasileiro?

Atualmente não há muita dificuldade em adquirir insumos de excelente qualidade. As melhores variedades de maltes europeus estão acessíveis ao mercado nacional. Os lúpulos de safras novas, bem frescos, são transportados e armazenados em cadeia refrigerada. Entretanto, se estamos falando de escola cervejeira belga o mais sensível são as leveduras. Para isso, antes mesmo de começarmos a nossa fábrica, foi importantíssimo estabelecer uma parceria com o laboratório Levteck, de Florianópolis, para o fornecimento de leveduras líquidas frescas e suporte na montagem do nosso próprio laboratório, que nos auxilia no controle de qualidade do produto final. 

Porém, os riscos são grandes, uma vez que estamos entregando um produto vivo, sem filtragem e pasteurização. Contudo, achamos que vale a pena já que o nosso cliente vai ter em mãos um produto com maior estabilidade sensorial, com novas camadas de sabor, produzidas pela refermentação. Inclusive, um determinado produto pode evoluir com o tempo. 

E as cervejas da Abadia da Gerais?

Abadia das Gerais

Até o momento vocês produzem três rótulos de linha, qual deles é o preferido do público?

A Glimworm que, inclusive, o assinante do Clube do Malte está recebendo com uma nova roupagem, é o nosso carro-chefe até o momento. Na versão original, ela tem cor âmbar-claro, aromas e sabores que remetem a caramelo, biscoito e nozes, provenientes do malte; uma pegada floral, como erva-doce, vinda do lúpulo; e leve frutado e condimentado, resultado da fermentação. A versão do Clube traz o maltado em evidência, com notas de casca de pão e mel; a lupulagem é um pouco mais cítrica e frutado lembrando melão; e aparece ainda um condimentado, com notas de pimenta branca e anis, proveniente da fermentação.

O rótulo é algo que também chama a atenção. Qual a inspiração das artes e o porquê dos nomes?

O conceito visual dos rótulos é baseado em animais da fauna brasileira com o nome em holandês, uma das três línguas oficiais da Bélgica.

Até o momento temos a Goudvis, peixe Dourado na tradução; a Luiaard, ou bicho-preguiça; e a Glimworm, que significa vaga-lume. Neste último, o animal que está em destaque é a coruja, pois queríamos ilustrá-la com a representatividade de sabedoria, além de ser o mascote da cervejaria. Neste rótulo, o qual prevíamos que seria o nosso maior player, a coruja está destacada, mas ela aparece também em todas as demais artes.

Previsões cervejeiras

Tomando como base a Catharina Sour, que está prestes a se tornar o primeiro estilo de cerveja originalmente brasileiro, vocês enxergam alguma possibilidade de criarmos algum estilo próprio brazuca inspirado em receitas belgas?

Acho que é possível alguma coisa que explore as frutas e/ou as madeiras brasileiras. Mas como caráter belga está muito voltado para a fermentação, talvez o desenvolvimento de uma linhagem de levedura nacional, com perfil de fermentação das belgas, seria um passo importante. A própria Levteck já tem alguma coisa nesse sentido, um blend de Brettanomyces isoladas aqui. 

Sobre projetos futuros, quais são os próximos passos da cervejaria?

Consolidar no mercado mineiro é nosso objetivo de curto prazo, mas a oportunidade de participar do Clube do Malte, entregando nosso produto a seus assinantes, nos dará uma grande visibilidade em âmbito nacional. 

Outro objetivo é lançar novos rótulos de estilo belga, como Dubbel, Tripel e Dark Strong Ale, mas somente quando os atuais estiverem bem consolidados. Projetos colaborativos também estão sempre no nosso radar. 

Ainda pretendemos ajudar as pessoas a conhecerem os sabores dessa maravilhosa escola cervejeira que escolhemos representar, participar ativamente da formação de conhecimento sobre cerveja, harmonização e escola belga junto aos nossos pontos de venda, provendo treinamento e suporte para todo este segmento, através de um projeto bem abrangente, “do campo ao copo”.

Conheça a Abadia das Gerais

Para conhecer um pouco mais sobre a Abadia das Gerais, além das belas versões que estão neste Beer Pack, a cervejaria possui um pub anexo à fábrica, no qual são realizados eventos fechados, cursos, degustações dos rótulos, além da visita guiada à fábrica. A visita deve ser agendada e normalmente ocorre com grupos fechados, basta entrar em contato com a cervejaria (abadiadasgerais.com.br). 

 

Abadia Luiaard

Belgian Dubbel

por R$

18,90

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