Bodebrown – A inovação e paixão cervejeira

09/07/2018 - Cervejarias, Notícias

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Bodebrown – A inovação e paixão cervejeira

Ana Paula Komar
Jornalista, apaixonada por história, curiosa por culturas e apreciadora de boas cervejas!

Com uma boa dose de inspiração, inovação e espírito revolucionário a cervejaria Bodebrown se tornou em uma das mais famosas e premiadas do Brasil. A Bodebrown vem conquistando o respeito dos cervejeiros, admiração e confiança dos consumidores. Todas as suas cervejas são preparadas com ingredientes de primeira qualidade, adquiridos com os melhores fornecedores nacionais e importados.

Fundada, em 2009, pelo pernambucano Samuel Cavalcanti, hoje um grande nome do ramo cervejeiro, e pela paranaense Andrea Cordeiro Pinto a cervejaria produz hoje 36.700 litros por mês e cerca de 56 tipos de cerveja e já está com o projeto de uma nova fábrica em andamento, com a meta de aumentar a produção em 300%, passando para cerca de 110 mil litros por mês e mais de 100 rótulos no portfólio.

Não se contentando em fabricar, decidiu também compartilhar esta arte com outros apaixonados e tornou-se a primeira cervejaria-escola do Brasil, pela qual já passaram mais de seis mil alunos.

Nós conversamos com o Samuel Cavalcante, que nos contou, com detalhes riquíssimos, sobre sua trajetória no mundo cervejeiro e, claro, sobre a Bodebrown.

Bodebrown

 

Cerveja de todos os Jeitos – Samuel, obrigado por estar conosco nesta edição. Nossa primeira pergunta é sobre como você veio para o universo cervejeiro.

Samuel: Como todo apaixonado por cerveja, quando eu viajava para o exterior, tomava boas cervejas, conhecia o que era bom e depois chegava aqui no Brasil e não encontrava a mesma coisa.  A Bodebrown nasce mais ou menos por esse caminho. Mas posso ir um pouco mais para os primórdios. Eu tinha nove anos de idade e era repreendido pelo meu pai quando eu dizia que queria ser vendedor de latinha ou de cerveja na praia. Ele dizia que eu deveria pensar em ser um doutor, mas eu achava tão interessante essa profissão. A pessoa estava sentada na praia, apreciando o mar, relaxando aí logo aparece um vendedor, ele compra a cerveja, toma e se diverte. Com isso eu imaginava toda a produção que estava por trás: uma fábrica, a brassagem, logística, o caminhão, a entrega, o resfriamento, etc. Tudo até chegar na caixinha de isopor que estava na praia. Bom, como meu pai sonhava eu fui para a faculdade, estudei fora e me formei em química e pude, de fato, realizar meu sonho, que explode quando eu estava no final do terceiro ano da faculdade, período em que a gente conhece a cadeira da microbiologia e em específico as fermentações, dentre as quais, o pão, a carne, o vinho, a cerveja e o destilado. E a parte que me encantou, acho que naturalmente, foi as bebidas. Eu até brinco e digo que eu adoro e sou um estudioso e um aficionado pelas bebidas.

Cerveja de todos os Jeitos: Sobre a trajetória da Bodebrown. Como foi o caminho até se tornar uma das mais aclamadas cervejarias do país?

Samuel: Cinco anos após minha formatura, eu comprei um kit para fabricar cerveja em casa.  Isso foi por volta de 2006, quando eu fiz a minha primeira brassagem em casa, aqui em Curitiba. Nesse período, ainda não tínhamos a internet como hoje, estava apenas começando, as pesquisas não eram tão acessíveis e eu tive muita dificuldade, principalmente em como de fato ter um envolvimento mais preciso com a cultura do Homebrew (cervejeiro caseiro). Essa dificuldade se transforma logo depois como a primeira cervejaria escola do país, porque eu não gostaria que outros cervejeiros que estivessem começando, passassem pelo o que eu passei. Mas uma pessoa me ajudou, ele se chama Alessandro de Oliveira, fundador da Way Beer. Uma pessoa muito querida que me deu algumas dicas no meu início. Em 2007 eu estava com uma micro fábrica, de 150 litros onde começo a fazer as primeiras produções. De uma mistura por paixão, pela infância, pela ciência por prazer, pelo conhecimento, pelo estudo e pelos amigos a Bodebrown começou a surgir.

>>Confira aqui também entrevista da Morada Cia Etílica<<

Cerveja de todos os Jeitos: E sobre a Cervejaria Escola, como veio esse projeto que vive até hoje?

Samuel: No meio desse caminho todo, no começo da Bodebrown eu recebia muitas pessoas aqui pedindo para comprar balde para fazer algumas produções caseiras. A gente começou a ensinar, formatamos os cursos, que inclusive tinha como professor o Alessandro Oliveira, depois foi o André Junqueira, da cervejaria Morada e na sequência o Edigyl Pupo, da cervejaria De Bora Bier, que está conosco até o momento. Ou seja, já são nove anos desse projeto e mais de seis mil alunos. Eu procurei instruir o público e compartilhar conhecimento. Isso é uma ferramenta muito importante para que haja realmente um consumo inteligente, um consumo sustentável. Em consequência dos cursos a Bodebrown acabou também virando loja, pois as pessoas faziam o curso, mas depois não tinham onde comprar os insumos. Mantemos esse tripé até hoje com a fábrica, a loja e a escola.

Cerveja de todos os Jeitos: O nome, acredito, é uma curiosidade de muitos fãs da Bodebrown. Como nasceu esse nome, qual foi a inspiração?

Samuel: A minha família é criadora de bode há mais de 200 anos no interior de Pernambuco. Eu queria colocar um nome holandês, que representaria toda a influência holandesa que recife sofreu. Quando eu liguei para minha vó e perguntei qual nome eu poderia dar para a cervejaria ela disse “meu filho você não tem nada de holandês, você tem mesmo sangue de negro, índio e português, sua família é essa e você tem que valorizar as suas origens”. Ela disse ainda que eu tinha que dar um jeito de engarrafar o bode. Quando desliguei o telefone estava tocando a música I feel good, do James Brown, meu irmão perguntou sobre o que minha avó havia falado, eu disse a ele o que ela pediu e eis que ele veio com o nome Bodebrown, “James Brown”, “Bode Brown”. Como em inglês brown significa marrom e nordestino gosta de colocar nome metade em português metade em inglês (risos), então ficou Bodebrown. E esse nome ganhou prestigio internacionalmente o passou também a ter um peso no cenário nacional, no Paraná e em Curitiba. Mas a verdade é que o nome Bodebrown vem as minhas origens da minha ascendência materna.

Bodebrown

Cerveja de todos os Jeitos: A Bodebrown é uma das mais premiadas cervejarias brasileiras, com todo merecimento, com títulos nacionais e internacionais. Qual foi o primeiro prêmio que receberam e qual o peso que ele trouxe para a cervejaria?

Samuel: O primeiro prêmio que ganhamos internacionalmente foi em Montreal, no Mondial de La Bierre com a cerveja We Heavy. Foi uma coisa fantástica! Depois, com essa mesma receita, ganhamos com prêmio na Austrália e medalha de ouro na Inglaterra. Para nós isso consagrou que o produto estava bem posicionado. Mas nossa intenção não é ganhar medalha, o objetivo é saber como está o produto e qualificá-lo para poder melhorar. Eu busquei os julgamentos para de fato saber se o que estamos fazendo tem fundamento e se estamos no caminho certo.

Cerveja de todos os Jeitos: Como nasce um rótulo da Bodebrown?

Samuel: Eu sou um cara que não gosta da mesmice e da repetição, acho que temos que navegar sempre em novos mares, como se fosse um descobridor de coisas. Cada rótulo tem uma inspiração, seja sobre o nascimento da cerveja, o projeto da cerveja, sobre como eu estava naquele momento, quem eram as pessoas que estavam se envolvendo. A Regina Sour, por exemplo, o nascimento dela surge como uma cerveja levemente acida, com framboesa, fácil de beber e que é uma homenagem a uma funcionária da Bodebrown, presente na construção dessa cerveja, e que é também uma pessoa levemente ácida (risos), é a funcionária mais antiga da empresa e uma pessoa de fácil diálogo e que se chama Regina. É assim que criamos, cada um de nossos rótulos tem a sua inspiração.

Cerveja de todos os Jeitos: Em uma entrevista David Thibodeau, da Ska Brewing, disse que uma das diferenças das grandes para as artesanais é o amor. Você concorda com isso?

Samuel: Totalmente sim. Não é à toa que uma de minhas cervejas se chama Cerveja do Amor. A palavra amor, normalmente está muito ligada a relação entre duas pessoas. Mas essa é uma palavra muito rica, é a forma de expressar o que você tem de mais puro para o seu semelhante, que não necessariamente é uma pessoa. Na luta e persistência em criar, construir ou fazer algo é onde entra o que o David quis dizer. O amor é um elemento muito importante para fazer existir um projeto craft. A extensão do craft é fazer com as mãos e eu sempre digo não importa o tamanho da sua panela, perante ao tamanho do seu coração, porque se você tem um coração grande, você pode ter uma panela de 20 litros, ou uma panela da Sierra Nevada, mas, desde que você seja o artista que certifica, que cria, que qualifica, que aprova e sabe o que está procurando. É o que eu digo em meu rótulo, não importa a sua cervejaria predileta, procure seu artista, seu cervejeiro.

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