Dado Bier: pioneira da cerveja artesanal no Brasil

13/03/2018 - Cervejarias, Entrevistas, Notícias

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Dado Bier: pioneira da cerveja artesanal no Brasil

Ana Paula Komar
Jornalista, apaixonada por história, curiosa por culturas e apreciadora de boas cervejas!

Pioneira na produção de cervejas especiais no Brasil, a cervejaria gaúcha Dado Bier é a primeira microcervejaria do país. Nasceu em 1995, em um momento em que o Brasil vivia um cenário cervejeiro completamente diferente de hoje. Naquela época, falar sobre cerveja artesanal era algo raro, pois não havia cervejas desse tipo. O mercado era totalmente monopolizado pelas cervejas das grandes corporações. Oferecer uma cerveja Weiss, turva, com presença de leveduras (fermento), mais amargor e gosto bem diferente, ao consumidor, que estava totalmente habituado a tomar cervejas douradas, cristalinas e bem leves era, no mínimo, considerado uma ousadia. E foi exatamente assim que a cervejaria Dado Bier se posicionou. Nasceu com a ousadia que conquistou paladares.

No início, a microcervejaria foi construída junto ao restaurante da marca, um local único que conjugava fábrica, bar e restaurante, servindo cervejas artesanais diretamente da fonte. Em 1996 a marca inaugurou sua fábrica na cidade de São Paulo e, em 1998, no Rio de Janeiro.  De lá para cá se manteve em constante evolução, apresentando novidades a cada ano, implementando unidades de restaurantes e expandindo seu portfólio de cervejas artesanais. Hoje, a fábrica possui capacidade para produzir 1 milhão de litros de cerveja por mês. Ao longo desses 24 anos, a Dado Bier construiu umas das marcas mais conhecidas, reconhecidas e queridas no Brasil.

O empresário gaúcho Eduardo Bier, fez história ao criar a cervejaria. Nessa entrevista ele nos conta tudo sobre o surgimento da marca, até os dias de hoje.

Cerveja de Todos os Jeitos: Como surgiu a cervejaria Dado Bier?

Eduardo: Na verdade, o assunto cerveja sempre foi uma brincadeira com o meu sobrenome, que é Bier e significa cerveja em alemão. Como antigamente era comum as famílias serem chamadas pelo oficio que exerciam, deduzimos que os antepassados da nossa família, na Alemanha, eram cervejeiros. Em 1992 eu tinha uma série de pequenos negócios e meu tio me incentivou e investiu na criação da Dado Bier. Sem internet naquela época a pesquisa tinha que ser direto na fonte, então visitei a Europa e conheci o modelo deles de produção em pequena escala. Na ida ao EUA percebi que por lá já havia um movimento pelo renascimento da cerveja artesanal. Juntei as ideias e insights e começamos a produzir cervejas em 1994 e, em 1995, abrimos a Dado Bier com fábrica e restaurante no mesmo lugar.

Cerveja de Todos os Jeitos: Como foi no início? Como conquistaram mercado com as cervejas especiais?

Eduardo: Criamos primeiro a fábrica junto com o restaurante, com a produção de cerveja aos olhos do cliente, trazendo ele para perto do negócio. O conceito inicial era ter um complexo de entretenimento ancorado à cerveja. Era tudo uma novidade para o consumidor, e nós atendíamos os clientes explicando tudo o que sabíamos sobre a cerveja artesanal.

Cerveja de Todos os Jeitos: Quais foram os maiores desafios?

Fábrica de Cerveja Dado Bier

Eduardo: Todos! Naquela época não havia conhecimento, não havia internet no Brasil, que hoje é uma forma muito rápida de pesquisa, e não havia quem conhecesse sobre cerveja artesanal. Tudo era muito difícil também em relação a produção, os equipamentos, os insumos e importações com custos elevados. Além do mais as cervejas mais turvas, mais amargas, com mais complexidade causavam certa estranheza no consumidor. Mas por outro lado tivemos sucesso por termos mostrado o diferente, o inusitado. Tivemos o ônus e o bônus.

Cerveja de Todos os Jeitos: Qual foi a primeira cerveja que produziram?

Eduardo: Produzimos primeiro uma

 

não filtrada e uma Weiss. Na sequência fizemos uma Red Ale.

Cerveja de Todos os Jeitos: Como foi ser um dos pioneiros a ter uma microcervejaria no Brasil?

Eduardo: Foi desafiador! O movimento das artesanais levou 15 anos para acontecer no Brasil. Aproximadamente de 1995 a 2003 o assunto tinha pouca propagação. Ao longo dos anos foram surgindo novas cervejarias e aos poucos o tema começou a ganhar mais destaque e a ter massa crítica. Hoje, é muito gratificante saber que contribuímos com cerveja artesanal no Brasil.

Cerveja de Todos os Jeitos: Quais as principais mudanças da Dado Bier desde 1995 até hoje?

Eduardo: A principal mudança foi o momento em que dividimos o negócio em duas atividades: bares/restaurantes e cervejaria. Trilhamos o caminho de nossa origem e mantivemos a cerveja como âncora do negócio. A cerveja é o entretenimento e o entendimento de que seria muito difícil crescer em um mercado de grandes companhias. Hoje temos uma posição intermediaria, somos grandes destaques perante as cervejarias artesanais, mas pequenos perante aos gigantes do mercado.

Cerveja de Todos os Jeitos: Qual o conceito da marca como um todo, restaurantes, pub e cervejaria?

Eduardo: Trabalhamos em cima do pilar da qualidade, inovação e do proposito em nos mantermos fieis a nossa origem. Iniciamos há 24 anos e temos nos mantido constantes em nossa caminhada. Tomamos muito cuidado com a dimensão do nosso portfólio e com a elaboração dos nossos 18 rótulos. Ganhamos credibilidade e nos tornamos uma marca conhecida.

Cerveja de Todos os Jeitos: Quais são os próximos projetos, as novidades da Dado Bier?

Eduardo: Atualmente a gente segue com o desfio de tornar a cerveja artesanal mais acessível. Há uma grande variedade de estilos e excessiva quantidade de rótulos com sabores muito complexos e com preços muito altos. Estamos focados na missão de como tornar a cerveja especial mais acessível e abranger mais pessoas com uma proposta descomplicadas.

Cerveja de Todos os Jeitos: Como você vê o atual mercado cervejeiro do Brasil?

Eduardo: Em 30 anos passamos de oito para oito mil rótulos no Brasil e um excesso de players sem mercado para todos. Usar como referência o mercado norte-americano pode ser o caminho para consolidar a cerveja artesanal perante o público brasileiro. Nos EUA já há um movimento para tornar a bebida mais acessível em sabor e preço.

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