Um monumento para o general

14/03/2017 - Prazeres Correlatos

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Um monumento para o general

Velho Cronista
Do tempo em que o futebol era jogado de chuteiras pretas

LEANDRO DONIZETE ACABA DE RECEBER A HONRA MAIOR: O ESTÁDIO DA SUA CIDADE NATAL, SANTA LÚCIA, AGORA LEVA O NOME DELE.

 

Leandro Donizete vive de destruir e derrubar. É um operário do estrago, um obreiro do arrasamento. E nessa função rudimentar, ele é imenso. Faz daquelas chuteiras miúdas – não deve calçar nem 39 – pesadas marretas de demolição, que mal percebem a diferença entra uma bola e um tornozelo, entre o couro e a carne.

Pelo Coritiba, certa noite trocou dois dentes por um escanteio ou algo do gênero. Saiu de cancha sem os dois incisivos, com uma janela aberta na boca ensanguentada. Pois o cidadão passou água (ou suor, ninguém viu), lavou a cara e voltou à cancha para mais uns minutinhos de peleja até que o técnico, Dorival Junior, o sacasse em definitivo e o mandasse para um dentista ou qualquer outro gaiato que estancasse o sangue.

Pelo Galo, essa disposição toda rendeu ao camisa 8 uma veneração imensa e um apelido que o explica no miudinho: general. É isso, afinal de contas, o que ele é: um oficial de conflagração. Leandro Donizete, o bélico.

Esse jeito intempestivo, de quem ceifaria as duas perninhas da própria mãe caso ela atentasse contra o gol que ele defende, ganhou também o carinho do povo de Santa Lúcia, cidade onde o volante nasceu.

Lá, Leandro é o orgulho da terra. É o papo dos piás que jogam de pés descalços pelas campinas e ruas de terra batida. Lá, os feitos de Messi e Cristiano Ronaldo não chegam. Ou, se chegam, não encantam nem assombram. Por ali, todo mundo quer ser Donizete. As camisetinhas dos meninos têm o 8 desenhado à caneta e o nome do rapaz em mal traçadas letras imediatamente acima.

São 8.723 habitantes, e todos têm pelo jogador uma adoração imensa pronta a virar homenagem: nessas férias, a pequena cidade declarou que o campinho daquela terra se chamará, a partir de agora, Estádio Municipal Leandro Donizete.

Vejam, nem bem é um estádio – é um campo com uns alambrados ao redor e um naco de cimento em uma das retas para os velhos e velhas que se cansam de ver a peleja em pé –, e mesmo assim a atitude é imensa. O que importa aqui não é o calibre da quadra, mas o tamanho do gesto. E para Donizete e o povo de Santa Lúcia é como se ele tivesse batizado o Maracanã, o Pacaembu, o Minierão.

O General, agora, calhou de ser imortal. O tempo vai passar, ele vai largar as chuteiras, vai até descansar da vida e os seus descendentes estarão dizendo por todo canto que o pai, o vô, o bisavô é nome de estádio, foi gente importante, homem de estirpe.

Tudo passa, e Leandro Donizete fica. É assim em campo, é assim na vida.

O homem que vive de derrubar e desmantelar, vejam vocês, é um dos poucos jogadores que jamais vai ruir.

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